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As ultimas cartas de um morador da terra Printable Version PRINTABLE VERSION
by Tony Pent, Brazil Jun 17, 2009
  Short Stories
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Na poeira dos mortos eu sinto a ânsia da fuga. Uma imensa piedade me devora de esperança, a qual eu sei que é também infeliz por nos fazer esperar. Creio em um Deus, mas deixo de acreditar em mim. Penso em um paraíso, onde não se sofre e onde as esperanças, as emoções , tudo tem um pouco do Criador. Mas, ao ver como tudo Ele deixou que transformasse, chego a triste conclusão de que , ao obtemos a consciência, criamos com ela a perversidade, e o que era para ser as nossas recompensas, exigimos demais pelo nosso orgulho, a ponto ocultamos o amor com as nossas infâmias. Sei que a felicidade seria perfeita se pudéssemos experimentá-la, no entanto, ela nos escapava ao simples direito de tocá-la. E é ai então que Você age, fazendo-nos entender que nós não passamos de um farrapo, constituídos de carne e de lágrimas. Quero rezar, mas minhas orações não têm qualquer sentido, elas são apenas mais um grito que sobe ao céu e Você covardemente, nos abandona.
Creio nesse instante, que eu não esteja mais só. Os vermes que sobreviveram comigo dão a luz da graça em me consumir ainda vivo. Tenho toda a certeza de que eles sobreviveram para iniciarem uma nova vida, independente da Sua vontade. As feridas da minha carne apodrecem e meu corpo será a presa dos insetos e o alvoroço das minhas larvas. Várias imigrações sucessivas formaram a minha fermentação pútrida . Tudo que sobrar da minha pasta gelatinosa servira de alimento para uma nova vida. A verdade irá começar em mim e continuara em outra parte. De toda a filosofia passada, só existe um pensamento verdadeiro: a evidência de nós mesmos existirmos é o principio de tudo. O mundo não passa de uma alucinação, que acreditamos vê-lo. Uma alucinação pura e verdadeira, de que ao se morrer, nós morremos para os outros e não para nós mesmos. Cada ser que aqui viveu foi toda a verdade e a morte é um falso Deus.
Meu caminho agora se torna mais difícil. Quanto mais caminho mais eu sinto frio. Tenho a impressão de que Deus quer me mostrar mais alguma coisa, ou me pedir perdão por Sua superioridade. Nós dois somos cercado pelo terror da noite e eu percebo que ao longe, alguém toca um sino e atravessa a súbita luminosidade. Novamente vem a escuridão tão espessa como antes e novamente reaparece a luz. As árvores negras e retorcidas começam a lutar contra o nevoeiro e ao céu em lhe tingir a noite de alvorada. Os brotos saem da terra e tudo começava verdejar. É talvez, o sinal do despertar de um novo mundo e de um Deus mais complacente.
Minhas lágrimas molham o chão inóspito e mais e mais ondas de luzes acompanhavam os sussurros dos regatos, antes poluídos, agora cristalinos a descer pelas encostas. As folhas das árvores parecem que brotavam com tamanha rapidez que é impossível ver que de instante em instante, elas se completavam nas suas formas milenares. Um bando de aves migratórias pousa nas suas folhagens e o vento no suave bailado me traz o cheiro de terra arada. Meu corpo repousa para morte, ao mesmo tempo em que refloresce para a vida.
Se fizermos uma oração a Deus e entendemos que Ele poderá alterar a ordem das coisas a nosso favor estaremos fadados ao absurdo, mas se a nossa oração for uma busca interior aos nossos pensamentos e que tudo se cumprirá pelas circunstâncias em que nos encontramos ela será admirável , pois em tudo veremos a comunhão natural da astúcia com o princípio.
Se um dia esse pequeno planeta voltar a ser habitado, pergunte a si mesmo: se for verdade que você vive? E, será chamado de louco. Mas, se indagar a si mesmo :se você existe? será chamado de filosofo. A primeira pergunta irá contrariar a lei Deus e a segunda nem sequer O encontrara , porque Ele nos criou e nos colocou em uma prisão aberta, onde se é possível matar-se e o mais deplorável, acovardar-se para que não ouse a fugir.
Enquanto fecho os olhos para a morte ou para a vida, a minha lembrança mais nova desse mundo será a gota derradeira, que ao choque mais sutil, ira transbordar, matar,destruir, mas, ao fundo, irá permanecer a semente de tudo, primitiva e inteira...






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Tony Pent


Escritor e jornalista
Livros
O diario de um terrorista, a visão de um terrorista, diante do conflito arabes e judeus
Estigma da loucura,
De volta para o inferno
Marysia e Henryk - saga polonesa
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