| by Tony Pent | |
| Published on: Jun 17, 2009 | |
| Topic: | |
| Type: Short Stories | |
| https://www.tigweb.org/express/panorama/article.html?ContentID=25423 | |
| As últimas cartas de um morador da terra Primeiro dia Estou só... Tenho a impressão de que já faz quatro ou cinco dias que eu não vejo uma alma viva em todos os lados em que olho a minha volta. Não falo com ninguém, a não ser com a minha própria consciência. Os pedaços dos seres vivos destroçados pelos escombros, nem sequer tiveram a primazia de serem comidos pelos vermes. Nada sobreviveu a esse terrível castigo. Todos estão mortos e eu , infelizmente continuo vivo, para dar testemunho do que aqui se passou. O sol como todos os dias desponta no horizonte, mas não tem a mesma intensidade de brilhar com seus raios de luz, os filhos que Deus deixou para habitar esse pequeno planeta. Tudo aqui é o desolamento. O silêncio é tão intenso, que eu posso ouvir a minha própria respiração embargada pelos soluços que vem de dentro da minha alma. Nem a mais simples formiga se movimenta diante dos meus olhos: As árvores que outrora nos dava a sombra e o encanto de suas flores, hoje, no entanto, se tornaram ressequidas e calcinadas e, se projetam sobre a luz do sol, como restos dos mortos a implorar com seus galhos em forma de braços negros, a piedade para os homens que aqui viveram. O que vejo a minha frente são as duras penas sofridas pela falta do amor. Os prédios majestosos, com seus espelhos a refletir a imponência dos homens,transformaram-se em amontoados de areia, bem como as casas, os monumentos e as ruas. Nem mesmo a mais leve aragem desloca um grão de areia de todos esses sonhos sepultados. As belezas solenes e fatídicas dessas imagens, combinam com os desgostos de se aqui viver por tantos anos. Parecem-me uma blasfêmia cogitar na destruição desse planeta e a extinção de toda a sua beleza serena. No entanto, a sentença foi comprida e aqui se estabeleceu o maior império dos mortos. Meu querido Deus e pai de todas as coisas, se Você que era para nós o principio e o fim, por que não nos deu a todos uma oportunidade igual? São essas coisas que eu não consigo entender, talvez Você não veja as coisas como eu as vejo. Nós nessa terra nos deslocávamos para todos os lados, e com isso nos fazia conhecer as pessoas que se amavam mutuamente e sempre esperava um afago de Vossas mãos com a compreensão de um verdadeiro pai. Se você sabia de tudo isso, afinal nos criou a sua semelhança, por que permitiu que seus filhos se matassem uns ao outros, se o Vosso filho adorava tanto as crianças? Você simplesmente acabou com o mundo, sem realmente nos dar uma oportunidade de superar as desvantagens que nos impôs. Hoje, agora, ao olhar tudo que restou da humanidade, fico a pensar como você se sentiu ao ter que criar uma luz nas trevas, para dar início ao mundo que tanto sonhara. Creio que a solidão que agora sinto, tenha sido a mesma que sentiu naquele dia e porque, agora, nos cobra esse direto ínfimo, que o Senhor mesmo nos concedeu? Dessa forma, sujeito-me a pensar, que os seus direitos sejam mais ínfimos que os nossos... Perdoa-me se me coloco como o último dos seus filhos que ainda vive, a interrogá-lo sobre as coisas que vem de Você ! Sei que estou cansado e com medo e, ao ver que tudo foi destruído e por me encontrar sozinho e a falar comigo mesmo. Sei que me revolto com tudo isso e fico a me perguntar: Por que Você não tomou um novo caminho e transformou os Seus filhos num caso de amor? Não! Isso poderia ser muito complexo para Você que não tem tempo para nada. Eu sim,amei esse mundo e Você jamais o amou como eu! Agora ao vê-lo assim destruído, eu fico a pensar que, talvez ,Você esteja sentado ai no paraíso, observando tudo e por certo não fazendo nada, como alias, nunca fez por nenhum de nós. Não consigo acreditar que Você deixou que tudo isso nos acontecesse... Afinal, se foi Você quem criou tudo isso, e que deu luz às estrelas, brincou com elas, encheu a terra de água e plantas, os animais e os homens: por que não levantou um só dedo para nos salvar? Será que Você já se cansou de brincar com seus inventos? Apesar tudo eu ainda moro em um dos menores planetas que Você criou e é aqui que eu gosto de viver. Foi aqui que encontrei meus amigos, meus pais e meus irmãos. Apaixonei-me por tudo que meus olhos viram e a minha percepção me deixou sentir. Mas nem por isso eu posso deixar de contestar solenemente que Você nunca se enquadrou neste mundo. Pode ter certeza que não vai aqui nenhum desrespeito sobre as minhas indagações , mas o mundo em que Você criou para os Seus filhos , mais se pareciam a um circo , habitados por verdadeiros palhaços e onde o principal espectador era Você. Eu sei que apesar de nós sermos esses infelizes e inocentes habitantes do Seu planeta, nós ainda irradiávamos uma alegria que Você podia sentir e até Lhe fazer um pouco feliz . E por pensar nisso, o mundo todo acreditava que Você jamais acabaria com tudo que Você mesmo construiu. É... não teve outro jeito! Você se cansou desse bando grotesco de artistas, que Você colocou para morar em Seu brinquedo, onde uns eram generosos e outros completamente loucos para se matarem uns ao outros. Lembra-se que foi Você quem criou todo esse espetáculo para o Seu prazer pessoal e, se alguma coisa saiu do Seu controle, nós, sinceramente não tivemos culpa alguma no Seu fracasso. Nós só fazíamos parte do Seu espetáculo e acredito ser eu o Seu palhaço mor, por me encontrar ainda na Sua diversão, mantendo-me vivo , na mesma angustia a que ela lhe proporciona o fracasso. Diante de tudo isso eu não consigo entender: porque o Dono de todo esse circo , abaixou as cortinas sem nos dar a chance de representar o ato final. - Onde está a Sua misericórdia? - Seria Você um louco, um vilão vingativo? Não... eu não creio! Ninguém que consegue criar uma flor, pode ser ao mesmo tempo uma pessoa má. Portanto, Você me deve muitas explicações. Segundo dia Hoje o calor se tornou mais intenso. Minha respiração se tornou ofegante e descompassada. Tem momentos que ainda sinto o ar entrar em meus pulmões, em outros tenho a sensação de morrer afogado em plena superfície. Não consigo dormir. Assento-me à sombra de uma rocha e lanço os meus olhos em volta até encontrar o horizonte. Toda a atmosfera esta impregnada de um cheiro de nada. Nem mesmo os vermes sobreviveram para me trazer o odor da morte. A melancolia suave se assenta lentamente em meu coração. Olho saudoso para tudo que me atirava na felicidade, e as lagrimas rebentam-me involuntariamente dos olhos. Repousa em mim, agora, somente a amargura. Felizes fomos nós, que no afago de uma tarde, adormecíamos em meio ao ruído da vida. No instante em que ainda vivo, o clarão do sol avermelhado vai sendo vencido pelo negro da escuridão. A terra vai seguindo o seu compasso tenebroso e enche-me de treva , escondendo-se de mim, as minhas formas, até então divinas. É assim que vejo os meus dias de saudades, onde tudo é uma lembrança indecifrável. Não sei se ao sobreviver a todos, dá-me o consolo ou me leva ao martírio . Gostaria de volver os meus olhos para esse fundo do abismo em que me encontro, e buscar uma só resposta para assim compreender: por que o eterno perece. Lembro-me que todo mundo tinha os joelhos para dobrar e elevar a sua fé até ao senhor, mas Ele, covardemente recolheu os seus e nós inocentemente nos colocamos em pé. E o quê deveria ser feito, se entre nós estava a cruz ensangüentada do Filho Dele ? Será que Ele desconheceu, no entanto, que tudo que deixou para nós pobres mortais foi Seu ato inexorável, em deixar que as nossas vidas caminhassem para perdição eterna . Se os meus pensamentos são repugnantes ao Vosso ouvido, também os são para mim. Pois eu, ao sobreviver nesse mundo, onde todos estão mortos, chego à mesma loucura Sua em destruir Você dentro de mim.Sinto agora, como se eu fosse um lobo uivando dentro da noite, enquanto, Você, folga-se a rir de mim e de todos os Seus palhaços mortos Sinto-me que hoje,nada posso Lhe oferecer além da compaixão e uma preposição. improvável de que Você existe e foi meu criador. O que seria por certo de Sua competência, transformar todas as nossas loucuras, em sanidades e nos dar a alegria eterna, em vez de todo esse sofrimento. Oxalá , Você compreendesse o quão atroz fora a Sua atitude, ao livrar-se dos homens, aplicando-lhes a pena mais abominável; o desprezo... Este sentimento foi fatal, foi semelhante a um grito de um homem ferido. Nossos olhos brilharam com o fulgor infernal. Nós não poderíamos compreender a causa de semelhante mudança por parte Sua. Você deixou que abrisse um abismo entre nós e que todos nós precipitássemos nele. Fez de sua semelhança um desgraçado! Por piedade , explica-me este horroroso mistério, que nos repele e nos liga ao nosso próprio cadáver. O senhor não sabe o que é sentir nas suas noites a esperança de chegar o amanhecer e com ele a alegria de se viver e quando os seus primeiros raios nos ferem os olhos cansados e nos deixa vê-lo por um instante e depois fecha-nos céu as profundezas do nada. O Senhor não sabe o que é caminhar pelos caminhos da vida e encontrar ao em vez do descanso a borda de um despenhadeiro,o qual nos força a cair. Esta é a historia da Sua criação, onde a iluminaste para cair no abismo, ao abandonar as nossas mãos. As lágrimas talvez possam brotar dos meus olhos por me lembrar quem eu era, mas ao condensar-se em meio a minha face, elas me queimam, como o vento que acoita os pensamento de Deus. Afinal, tudo me é penoso e esta espera me enlouquece. De tudo, a esperança e desespero é a mais cruel mistura da espera... Terceiro Dia Mais um dia de treva e eu me encontro; sem saber como, no mais alto dos escombros. Sinto o vento que agora sobra com mais velocidade e me traz um frio que gela os meus ossos e a minha sofrida alma, Tento rompe a escuridão que ora me cegam os olhos e ora me enegrecem os pensamentos. Diante de tudo, eu ainda posso vislumbrar o mar que parou de rugir, como a um ferro incandescente ao esfriar-se de repente. O espetáculo é apavorante e me trazem, talvez, as minhas ultimas lágrimas aos olhos. Sinto que agora chegou a minha agonia final. É pavoroso ver o mundo de tantos sonhos, transformado em sepulcros de seus habitantes. O oceano está mudo, coisa que em nem um só dia, por vários milhões de anos, ele deixou de gritar se agarrando aos rochedos dos continentes. Mais uma vez eu sinto medo! Tudo se transformou em cadáveres, imóveis e mudos e eu me encontros, novamente a sós com a solidão. Que Deus é esse que me mantêm vivo, somente pelo bel prazer de me fazer testemunhar todos os pecados dos homens. Estou como que aturdido – vejo e sinto sombras negras e não dou conta de ter a consciência de mim mesmo - Estou como se levantasse os pés do chão, livre e flutuando, paralisado sobre uma loucura total. Tudo que me rodeia parece brincar com meu espírito e a me fazer interrogar: se Deus está muito longe de mim? Muito eu creio! Como o homem é capaz de sentir na felicidade a presença de Deus, no entanto, eu nada sinto. Apenas O presumo no meu desejo e na minha imaginação e nunca na força que vem do meu sentimento. Sinto como se tocasse novamente os pés em um mundo maravilhoso, onde não se consegue imaginar a suas cores vivas, ou o percorrê-lo no desejo de se fazer valer a força do pensamento. Quem viveu nesse mundo, sentiu ter a existência tranqüila , mas o seu inconsciente, sempre o levou para as vidas atormentadas, criadas pela indiferença de Quem nos criou. Não sei porque esta sorte da existência tranqüila atormentou tanto os homens , a ponto de levá-los a se angustiar da vida, em lugar de saborear a sua infinita doçura. Será que temiam a sua existência por não se acharem dignos dela, ou por que não se consideravam merecedores da felicidade divina? Vinte séculos já se passaram desde a vinda do Messias e, creio eu, vários povos O escutaram, se bem que os mais humildes. Tudo que foi dito pelo Vosso Filho se espalhou por essa terra em que me encontro só, castigado e desolado. Esse nosso pequeno mundo foi cercado pela Sua liberdade vigiada. Os que se amavam e seguiam restituindo, a generosidade, a paz e conheciam as palavras de Seu filho, muitas vezes se entregavam como mártires nas mãos dos algozes, para morrer na esperança de uma existência, a que os céus nos foram prometidos. Diante da solidão em que os céus nos colocaram, o mundo se voltou às costas para a cruz dAquele que espalhava o amor, o afeto e a generosidade, vindo a se entregar às coisas fúteis e ao egoísmo. O Seu abandono fez-nos criar uma geração de amedrontados, agarrando-se as crenças e ao medo. Hipócritas usaram o Seu nome e criaram seitas milionárias, roubando-nos a moral e grandeza de tudo que vinha de Você . Outrora, a voz que clamava no deserto era o alento dos oprimidos e dos inocentes e com ela o mundo buscava a sabedoria que por certo vinha de Você .Mas, nos dias que precederam a esses , no entanto, a Sua espada da morte brilhou nos quatro cantos da terra. Os donos do mundo esqueceram-se de seus pais e de seus filhos e na embriagues do egoísmo, romperam-se com o amor e com a virtude e, Você nada fez para que nos terminássemos assim... O meretrício se instalou no templo do Vosso filho e encheram de abominação e sangue as toalhas que cobriam os Vossos altares. Bombas atômicas foram testadas a todo tempo nas profundezas da terra e tudo para mostrar aos seus próprios criadores, o poder de que dispunha a humanidade. Humanidade esta, que sentia a todo instante, o poder soldar a cadeia da vida aos doentios interesses. Mas, quanta dor refletiu a loucura na alma dos homens, dando-lhes a febre que lhes queimaram as lágrimas, não os deixando lembrarem-se de si mesmos! No lugar do amor e da igualdade, assentou-se o terror dos poderosos e foram criados em Seu nome milhares de Babilônias, onde todos se vendiam ao desejo e ao escárnio. E agora, ao ver Seu mundo destruído da forma que foi, só se podia esperar que Você já tivesse conhecimento, de que os nossos dias estavam contados. Eternidade, eternidade! Que pensamento mentiroso! Tudo perece, porque a eternidade é a alma e nela existe o Seu mais frágil império. Tento fechar os olhos para fugir desse mundo de realidade, mas os olhos do meu espírito se voltam para as existências transitórias e eu sou compensado pelas visões consoladoras. Diz-me voz da minha loucura; esse doloroso espetáculo que assiste a minha alma, é o fim do mundo, ou o começo para Aquele que não soube nos criar? Quarto dia O sol que agora brilha em meu rosto desfigurado, faz-me compreender: que eles só mantém a sua luz, para iluminar as coisas mortas deste planeta condenado e, com isso, Você enxergar toda a grandeza que a Sua imagem e semelhança não deixou que as existissem. Eu deveria odiar esse sol que me queima a pele e que Você só o criou para ser o inimigo dos homens, em lhes mostrar a realidade, invés dos sonhos. Mas, eu não o odeio como Você nos odiou. Será que toda essa culpa vem de nós mesmos? Será que deveríamos ter sonhado mais? Gritado para o real como: eu vivo aqui e estou cheio de vida! Não, isso em nada mudaria a nossa trajetória! O nosso destino já estava traçado desde o dia em que Você nos criou, ao nos criarmos, Você já podia presumir, que a nossa criação fora o Seu único erro. Diante do fato consumado, Você se afastou de nós, como se a nossa doença pudesse Lhe contaminar. E como se vê, o contaminou! Nas nossas noites nós sempre nos apegávamos ao seu desprezo e era muito difícil conter as lágrimas. Nós sempre vivíamos na apreensão pelas Suas palavras duras e cruéis as quais nos poderiam transformar em condenados para sempre. Toda a angustia pelas quais eu teria ainda de passar e toda a vergonha que me restava sempre me sobrecarregavam o espírito a ponto de chorar condoído de mim mesmo. Lá embaixo,o vento frio levanta suavemente a superfície das águas do rio. Morro de sede e tudo estão contaminados pela morte! A atmosfera está impregnada pelo terror! Os derradeiros raios de luzes começam a desaparecer para dar a cor avermelhada da tarde e com eles eu sinto a presença das imagens dos anjos dos sonhos, menos tristes do que essa terrível realidade. A terra vai escurecer e Deus vai dormir também. As armas dos religiosos tinham chegado ao apogeu, enquanto a ira celeste se mantinha satisfeita. As terras do mundo eram como a um altar, onde as chamas das cidades incendiadas pelas bombas, serviam-se de pira sagrada para consumir aos milhares, as vítimas humanas. Só o silêncio e o desalento reinavam por todas as partes e em tudo que se via era pela ultima vez. Antes, uma nuvem de tiros choveu de todas a partes sobre os renegados da criação. As montanhas rolavam de cima para baixo e com elas os guerreiros da fé era triturados, cujo sangue se espalhavam aos gritos de raiva e de desesperanças. Nazareno, mostraste-nos a salvação, se seguíssemos mas, foi com um aceno Seu que Seus filhos se destruíram. Tenho grave suspeita Sua, pois ao se tornar nosso irmão de fé, protegeste a quem o levou a cruz, nos ensinado o caminho do inferno. Nosso sangue não redime o pecado de Vosso Pai. Quinto dia Em se ver tudo acabado, passo a me lembrar de como tudo aqui se apegava a Você, meu criador! A nossa idéia de salvação começava a fazer sentido, a tal ponto, que todos eram conduzidos ao desespero , ao medo , a injustiça e a confusão sobre a morte. Todos tentavam se salvar, buscando apoio nos seres humano intitulados como profeta e que se diziam os mensageiros de Vossas palavras: a verdade está conosco! Somos os eleitos! Junte-se a nós! A aceitação era muito simples; primeiro as pessoas chegavam absolutamente em desespero e depois se tornavam submissos. Os escolhidos eram sempre os que tinham perdido as esperanças. A terra em pouco tempo se tornou em um celeiro dos iluminados, onde o medo espalhado por eles estava por todas as partes. Todos viviam com se fossem envolvidos por uma nevoa escura que se erguia dos pântanos, uns eram cegos no Evangelho e outros tementes ao Alcorão. O medo se tornou em doença e o desespero em praga ainda maior. O fim das Suas coisas temporais, obcecava os habitantes do Seu planeta. A esperança humana passou a se basear , simplesmente na Sua misericórdia Divina , sem nunca levar em conta, a maneira inteiramente diferente para a qual o mundo Você deixava caminhar: sem gloria e sem majestade. O egoísmo na luta pela sobrevivência trouxe as devastações das florestas e impermeabilizou os quatro cantos da Sua adorada terra, deixando-a sem vida e sem esperanças. Por todos os lugares desse pequeno mundo, as catástrofes e os acidentes naturais foram inevitáveis. A fome, a sede e as doenças varreram boa parte da humanidade e, a desesperança entrou no coração do homem e o terror lhe quebrou toda a nobreza. Peregrinos sem lar e sem família seguiam por lugares inóspitos, vales profundos, aonde a vida se seguia insuportável, cujas únicas esperanças, baseavam-se na Cruz arrancada das catedrais destruídas ou nos escritos que restara das paredes das Mesquitas. Por todos os lados em que fora passado o alfanje da conquista, tornaram-se ruínas e servidão. O espírito da liberdade ora se chocava contra o domínio do califa do Alcorão, ora se chocava contra a opressão Cristã. Muitos adormeciam para sempre na solidão de seus próprios sonhos e outros saudavam o amanhecer, por mais um dia de esperança, para vingarem os seus . Essas barbáries, dizimavam os homens em Seu nome . Eu vi a Sua criação ser destruída pouco a pouco e a se massacrarem uns aos outros. Os Seus animais domésticos e selvagens,dotados de Suas poucas semelhanças, por sua vezes se juntavam em harmonia para devorar os restos mortais deixados pelos Seus parentes mais inteligentes. Os rio que Você fez para dar vida a mais vidas iam se tingindo de sangue e de corpos apodrecidos. A peste se instalou por todos os cantos como câncer e, as suas maiores vítimas foram as Suas crianças, as quais Você não havia dado a chance de sonharem com um mundo melhor para os descendentes. Carros bélicos com alto poder de fogo assombravam aos olhos dos condenados. Tanto faziam árabes ou cristãos, todos tombavam mortalmente, estraçalhados ou varados, em nome de um Deus todo poderoso. – De onde vinha tanta fé, a que foi conferido o direito de matar em nome do Seu amor? A lua que outrora dava esperanças aos poetas e aos apaixonados, foi-se tornando escura pelo ódio e pela fumaça que o fogo se alimentava das inocentes vegetações. Arvores centenárias que há anos nos nutria com o puro oxigênio, tombavam junto com os homens e com os animais e se transformavam em personagens carbonizados, da mais horrenda cena de pavor. Todas as mágoas se acumulavam a outras mais pungentes. Homens e mulheres e filhos não repartiam mais afeto, todos só queriam sair vivos da discórdia. Agora o dia morre no horizonte. Um vento frio me enregela até os ossos e no céu aparecem as primeiras estrelas. Quantas saudades eu tenho das vidas dos que aqui viveram e em se pensar que a idéia de que existia um Criador nasceu com a própria humanidade, constituindo-se assim toda a nossa religiosidade e o nosso alicerce. Todavia, os homens passaram a buscar a educação, a formação técnica e o desenvolvimento cientifico dos quais os levaram a descrença e aos ideais revolucionários. Guerras se espalharam por todo o Seu planeta e cresceram-se assim as sociedades urbanas e as metrópoles. O ser criado por Você sempre O adorou e O respeitou, mas as mudanças nos procedimentos e nos envolvimento deles quanto aos assuntos espirituais os tornaram autoritários e levaram a Sua humanidade ao desequilibro na forma de se viver. A sua criação passou a ser tão individualista, a ponto de pensar por si mesmo e a julgar não mais nos moldes coletivos, individualizando-se até mesmo a idéia sobre Você. Com o passar dos tempos, a sua criação passou a ser manipulada pelas autoridades e começou a aprende que devia se submeter, respeitar e obedecer e abdicar-se da própria potencialidade em relação à razão e ao amor. A Sua criação se tornou fraca, anulada e submetida à proteção dos superiores. A felicidade dos Seus foi sacrificada em detrimento de ideais para as vidas futuras, resultando em mudanças drásticas, no jeito de se enxergar a vida, e os ideais passam a ser fins e não meios. Fins que nos levaram a manobrar os semelhantes e a considerarem a desobediência como o nosso maior pecado. A Sua criação foi levada à humilhação e como submissa esperava sempre pelo Seu perdão. Os arrependimentos que vinham pelo medo do inferno nos faziam sair da crise enfraquecidos e cheios de ódios por nós mesmos e prontos para pecarmos novamente. . Como Você vê pelo que restou desse Seu pequeno mundo, a Sua criação não chegou a conhecer-se a si mesmo e com isso nunca alcançou a felicidade. Diante de todos esses enganos eu posso chegar terrível conclusão de que Você já havia pensado como tudo se acabaria e com seria difícil para nós, pensarmos de novo sobre nós mesmos, Eu ainda trago comigo, mesmo sem conhecer, o aroma das violetas e a alegria de cada rosa que nascia, a saldar pela manhã, a vida de algum poeta sonhador como eu. Anos e anos esse sol que hoje me consome em vida tinha frescura de seus raios a iluminar a mocidade dos que me antecedera. A natureza criada por Você parecia que nos entoava as canções das estações e sempre nos avisávamos de que o tempo passaria e que deveríamos amá-Lo e sonhar com um bem que Você, talvez nunca tenha sonhado para nós. Que ledo engano cometeu a Sua humanidade, em pensar que nesse mundo, nada estava escrito e que Você jamais se arrependeu em nos dar a inteligência. A Sua generosidade nos levou ao sacrifício inconsciente, pelos quais repousam os mortos e os prantos das mães. O Seu mundo virou um trânsito de espectros, nunca de vencedores ou mártires. A nossa herança foi sempre a de se pensar, que na morte , a semente excitaria a ira das crianças que logo cresceriam para vingarem-se dos seus, pela espada e pela bomba e por essa total destruição. - Anjos e demônios! Coorte de renegados diga-me; por que a Cruz foi novamente ludibriada? Onde estão os sacerdotes que se deliciavam com os Seus martírios? Sexto dia Hoje me sinto como se eu fosse um barco estraçalhado pela tempestade. Minhas memórias olham para as juventudes longínquas, como um marinheiro que olhou para o horizonte e se viu debater com o furor das ondas da realidade dolorosa. Contra os fatos grita o clarim soberano e consagra-se a morte. Os presságios nos mostravam uma dor futura de que as sombras reais nos levariam para os sepulcros. Nosso único sopro consistia de uma praia, onde os soluços de Seus escravos, o nosso Criador não os ouvia. Você sempre nos viu como um vulto a retornar da Sua ruína final. Maus séculos nos foram dado e tudo a se pagar com a vida. Premiou-nos com Seu cruel fado, a nossa atmosfera apodrecida e Seu desrespeito covarde em nos dar a Sua imagem e semelhança. Nossos jovens derrubados sobre a Sua terra indefesa inspiravam-se no que seria, por certo na Sua imagem de vingador e da Sua ira incontida. Armo-me agora de antigas memórias e de esperanças, de que um dia você nos ensinou, que a nossa alma estava desfeita e que a nossa pena seria eterna. Por que nos inseriu em Seu fado hostil e nos encheu de esperanças, e agora se senta glorioso da Sua menor reprovação? Que premio reservava para Você naquele presente, em ver no futuro que Seus filhos cresceriam e que procuraria em Você o abrigo firme da compreensão, ao em vez de ofertar as nossas cabeças a nossa própria destruição. Não acredito que esse céu possa escondê-lo e que depois de tudo consumado, as Suas mãos ainda sejam feitas para nos lançar o perdão e coroar a Sua cabeça junto à tumba a qual se transformou a Sua criação. Na poeira dos mortos eu sinto a ânsia da fuga. Uma imensa piedade me devora de esperança, a qual eu sei que é também infeliz por nos fazer esperar. Creio em um Deus, mas deixo de acreditar em mim. Penso em um paraíso, onde não se sofre e onde as esperanças, as emoções , tudo tem um pouco do Criador. Mas, ao ver como tudo Ele deixou que transformasse, chego a triste conclusão de que , ao obtemos a consciência, criamos com ela a perversidade, e o que era para ser as nossas recompensas, exigimos demais pelo nosso orgulho, a ponto ocultamos o amor com as nossas infâmias. Sei que a felicidade seria perfeita se pudéssemos experimentá-la, no entanto, ela nos escapava ao simples direito de tocá-la. E é ai então que Você age, fazendo-nos entender que nós não passamos de um farrapo, constituídos de carne e de lágrimas. Quero rezar, mas minhas orações não têm qualquer sentido, elas são apenas mais um grito que sobe ao céu e Você covardemente, nos abandona. Creio nesse instante, que eu não esteja mais só. Os vermes que sobreviveram comigo dão a luz da graça em me consumir ainda vivo. Tenho toda a certeza de que eles sobreviveram para iniciarem uma nova vida, independente da Sua vontade. As feridas da minha carne apodrecem e meu corpo será a presa dos insetos e o alvoroço das minhas larvas. Várias imigrações sucessivas formaram a minha fermentação pútrida . Tudo que sobrar da minha pasta gelatinosa servira de alimento para uma nova vida. A verdade irá começar em mim e continuara em outra parte. De toda a filosofia passada, só existe um pensamento verdadeiro: a evidência de nós mesmos existirmos é o principio de tudo. O mundo não passa de uma alucinação, que acreditamos vê-lo. Uma alucinação pura e verdadeira, de que ao se morrer, nós morremos para os outros e não para nós mesmos. Cada ser que aqui viveu foi toda a verdade e a morte é um falso Deus. Meu caminho agora se torna mais difícil. Quanto mais caminho mais eu sinto frio. Tenho a impressão de que Deus quer me mostrar mais alguma coisa, ou me pedir perdão por Sua superioridade. Nós dois somos cercado pelo terror da noite e eu percebo que ao longe, alguém toca um sino e atravessa a súbita luminosidade. Novamente vem a escuridão tão espessa como antes e novamente reaparece a luz. As árvores negras e retorcidas começam a lutar contra o nevoeiro e ao céu em lhe tingir a noite de alvorada. Os brotos saem da terra e tudo começava verdejar. É talvez, o sinal do despertar de um novo mundo e de um Deus mais complacente. Minhas lágrimas molham o chão inóspito e mais e mais ondas de luzes acompanhavam os sussurros dos regatos, antes poluídos, agora cristalinos a descer pelas encostas. As folhas das árvores parecem que brotavam com tamanha rapidez que é impossível ver que de instante em instante, elas se completavam nas suas formas milenares. Um bando de aves migratórias pousa nas suas folhagens e o vento no suave bailado me traz o cheiro de terra arada. Meu corpo repousa para morte, ao mesmo tempo em que refloresce para a vida. Se fizermos uma oração a Deus e entendemos que Ele poderá alterar a ordem das coisas a nosso favor estaremos fadados ao absurdo, mas se a nossa oração for uma busca interior aos nossos pensamentos e que tudo se cumprirá pelas circunstâncias em que nos encontramos ela será admirável , pois em tudo veremos a comunhão natural da astúcia com o princípio. Se um dia esse pequeno planeta voltar a ser habitado, pergunte a si mesmo: se for verdade que você vive? E, será chamado de louco. Mas, se indagar a si mesmo :se você existe? será chamado de filosofo. A primeira pergunta irá contrariar a lei Deus e a segunda nem sequer O encontrara , porque Ele nos criou e nos colocou em uma prisão aberta, onde se é possível matar-se e o mais deplorável, acovardar-se para que não ouse a fugir. Enquanto fecho os olhos para a morte ou para a vida, a minha lembrança mais nova desse mundo será a gota derradeira, que ao choque mais sutil, ira transbordar, matar,destruir, mas, ao fundo, irá permanecer a semente de tudo, primitiva e inteira... « return. |
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