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Asfaltaram meu único espaço de terra fértil, arrumado com tantas mãos dedicadas,
Enquanto estive fora tentando me refazer da bala pesada que quase me tirou do caminho.
Como seguir em pé quando se sabe que para a maior parte da civilização
você é só mais um estorvo atrapalhando as práticas desses que cortam sem dó
qualquer coisa que impeça seu conforto e suas investidas??
Recomeçar inúmeras vezes entre aquilo que já foi (não soube incluir, pior, excluiu)
e o que ainda não é, não tomou forma, nem corpo.
Em um pedaço do meu cultivo, regado de carinho, quentura e suor sobraram minhas marcas de sangue e o restinho de plantação - ainda verde numa secura sem fim, vejam só!
Era como dizer: "Vale a pena resistir e insistir, cada ser tem direito à uma parte de solo para seguir
em frente com dignidade, mas não tem direito de acumular e querer ser dono de áreas imensas passando a escravizar tantos outros."
O mais foi arrancado por rodas truculentas com a força da ignorância e ambição suja sem medida.
Meu cavalo "Ventania", companheiro de tantas idas e vindas, estava alí sem dar conta de levantar, só não morreu por ajuda dos amigos de luta fiél pela terra e ainda me olhava com esperança.
Esses ouviram meu lamento de desespero quando vi a atitude dos que acham que mandam, e apareceram imediatamente para me abraçar e acolher.
O homem cheio das posses que arrasou meu lugar de colheita queria que eu fosse seu empregado. Não!
Ele e sua empreiteira, sempre uma dessas em longa carreira de destruição para lucrar seja como for.
Destruir, arruinar para "construir"!! Acorrentando indivíduos no eterno ciclo de exploração e dependência.
Trabalhadores rurais trouxeram também meu filho, único filho, que há muito, iludido por promessas falsas,
havia partido para a cidade enorme em busca do que ele pensava que seria uma "vida com direito à mais bens materiais".
Se arrependeu, meu filho, das luzes de mentira e voltou dizendo que queria lutar conosco, que a verdade estava em nossas
raízes. Retornou sem se perder, sem se vender, sem futilidades.
Pena que veio em época tão difícil, mas estava disposto e decidiu alí fazer seu futuro, emocionado, com saudade, sentiu na pele a ilusão de um lugar artificial que o fez dar valor aos dias simples no interior.
Nos abraçamos e choramos agarrados tão intensamente que repentinos trincados surgiram no concreto que incomodava nossos joelhos, era como se as lágrimas estivessem purificando para deixar respirar
aquele local que sempre foi nossa morada.
Em Vista Alegre do Abunã - Rondônia - escrevemos nossa história apenas com o que é necessário para tocar a lida aproveitando e cuidando dos animais e da terra que nos garantem o amanhã, sem falhar.
Uma grande tragédia abalou o mundo do homem das posses! Bens que não foram capazes de reverter o seu sofrimento e uma queda imediata. Finitude, desgosto, acidente...
Tiramos todo o concreto com nossas ferramentas e força de vontade, colocamos ao redor de sua propriedade. Justiça seja feita!
Alimentos, vieram durante um bom tempo, de um conhecido da região próxima que não
chegou a ser afetado pela brutalidade, sua horta era abençoada, afinal havia diversidade
e colheita farta. O céu parecia ter derramado lá algo divino para nos fortalecer enquanto preparávamos a nossa parte, dia e madrugada, trabalhando e com fé que aquela região voltaria a ser
como antes assim que possível.
No final da tarde a gente sentava em roda para contemplar o silêncio e o Sol indo embora riscando forte ampliando a fragilidade dentro do peito!
No meio de um dia quente, com trabalhadores espalhados por aquele sagrado pedaço de chão,
um vento prolongado com temperatura nas alturas queria avisar que a maldade não dá trégua.
Recebemos um alerta que todos estavam ameaçados de morte pelo senhor das posses,
que mesmo em cadeira de rodas, quase sem se mexer, ainda gritava ordens aos seus
parceiros em ocupações deploráveis. Obedeciam à um patrão que os deixava em
situação extremamente precária jogados à própria sorte.
Não existia sossego, só insônia, fraqueza, medo, vigilia permanente.
União, trabalho e fé nas sementes nos fazia esquecer, às vezes, a preocupação.
Disparos e gente ruim rondando a região eram frequentes.
Depois de muitos meses nessa tensão, a terra começava a nos presentear
com verde, flores, frutos, as raízes firmes, grossas mostravam que estavam
gostando da forma generosa e amorosa que a gente revirava aquele lugar tão
calejado pela maldita competição. Sem qualquer tipo de veneno.
Para completar a insatisfação do patrão que quer sempre mais, sua filha não
concordava com as atrocidades praticadas e abandonou o conforto para morar conosco, aprender e entrar na lida. Tinha no sangue uma vocação rural.
Falava que com ela por lá o pai não teria coragem para concretizar a idéia de nos matar. O pai seguia tomado pela raiva.
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Writer Profile
Elaine CrisXavante (Comitiva Pantaneira)
O poema de Clarice Lispector "Pertencer" me define bastante e meu Perfil aqui no TIG também, veja quando quiser.
Seja Bem Vindo ao meu Mundo!
"Quero além dos Horizontes/ mais que uma madrugada/ sol que nasce atrás dos montes/ não clareia a minha estrada..."
(Zezé Di Camargo)
http://criscasty.tigblog.org/?setlangcookie=true
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