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Prefiro a Luz da Vela que com Cera em Fervura me Leva ao Ser Rural Printable Version PRINTABLE VERSION
by Elaine CrisXavante (Comitiva Pantaneira), Brazil Jan 3, 2012
Culture , Human Rights , Environment   Short Stories

  

Prefiro a Luz da Vela que com Cera em Fervura me Leva ao Ser Rural Luzes do céu ou do fogo nos afastados do interior do Brasil,
No meio das matas pequenas estradinhas que levantam uma poeira familiar perto de grandes comunidades Indígenas.
Árvores enormes se enroscam lá em cima formando o teto vazado, recortado, entre folhas, galhos, ninhos, teias.
E é o fogo, da vela que carrego, que reluz as noites naturalmente mais escuras desses lindos cantos distantes da iluminação artificial - pois essa eu não quero, não me ofereça claridade doentia!
Prefiro uma vela, sempre existe uma que se revela em altas chamas sombreadas para me levar nos lugares de esperança inabalável, mesmo com tantas agressões, os focos
de confiança explodem sem medo, a vida teima em brotar.
Energia forçada para atender luxos e criações desnecessárias?
Eu prefiro seguir com uma singela e poderosa vela que quando me queima
com sua cera em fervura nervosa desce rasgando minha pele, regada por prantos, me lembrando a cicatriz que não finaliza sua dor
avisando todos os dias que uns poucos se beneficiam da exploração da maioria dos habitantes da Terra, como se houvesse diferença entre um e outro.
De joelhos, grudada em terra fofa, eu rezo, junto da chama do fogo que balança pelo vento
e parece levar palavras de fé onde precisam chegar, afinal um pequeno corte se
abriu em minha mão com tamanha emoção ao sentir aquele chão fértil, marron avermelhado, intacto, pulsando em minhas profundezas.
Poucas gotas de sangue misturadas com cera em fervura formaram um riacho fininho com pingos espalhados de chuva caindo pesados, um alí outro aqui, marcando a terra em pequenos buracos rasos.
Escorria soltando fumaça, indo embora até que meu olhar já não acompanhava.
Um grito no meio da imensidão selvagem me fez tremer e espirrar suor com cheiro de erva.
A vela seguia clareando apenas o principal ao meu lado.
O riozinho em febre rústica chegou à comunidade indígena que dalí era próxima,
Como querendo avisar, então despertou um índio Xavante que partiu ao meu destino.
Um casal caboclo fugindo de alguém correu em desespero.
Minha febre foi a evidência de que a ajuda era urgente.
O homem sábio da tribo conversou comigo e consegui compreender sua mensagem mesmo na dificuldade de escutar e compreender palavras
com seu jeito nativo de falar.
Sua presença já era o próprio abrigo.
Eu não o sentia estranho, muito pelo contrário, era próximo demais.
"Sabemos de tudo, a Natureza nos dá recados certeiros e temos a sabedoria dos povos antigos correndo nas veias. Eu digo nós indígenas, povo floresta, trabalhadores rurais. Seu sofrimento é o nosso. Lembra das raízes das plantas, do seu formato? É como suas veias, nelas corre a terra
e sem ela ninguém segue vivo. Nas suas, em específico, corre sangue indígena de um passado quase esquecido e você foi atraída para esse lugar pelo coração, salvou a vida de uma mulher e um homem do campo, que plantam com amor, cuidam e denunciam
todos os malfeitos daqueles que se dizem "civilizados" e chegam aqui sem respeito, arrancando, devastando, destruindo, ameaçando...
Quer saber? A poça era tão quente lá na frente, imensa, que um enviado para assassinar, caiu, se queimou e ficou paralizado, deixando o casal
caboclo em paz, pelo menos por enquanto. Volte para seu lugar provisório com essas sementes, cada uma se transformará em força para aguentar firme até que a intervenção espiritual seja feita entre os habitantes, algo que já vem sendo realizado, não estás sozinha filha do campo! Sua alma continuará nessa região e estará aqui sempre que necessário. Nós sabemos e guardamos os mistérios, muitos de nós já foram exterminados pelo homem que pensa poder dominar tudo que está totalmente além do seu pobre entendimento. Existem segredos que nos protegem, esses poucos, porém de enorme importância, que ainda restam contra a sociedade que insiste em artificializar o viver. Seu machucado se tornará um pequeno sinal da família de origem a que pertence. O centro de poder do Planeta sabe como, quando, onde, com quem fazer justiça e se revirar de forma inesperada!
Sempre foi um fardo não foi?? Mas eu peço: Não desista! Siga recusando a sociedade que se criou em alicerce falso e oco, não será em vão!"
O barulho dos pássaros anunciava que o novo dia era fato e, com a certeza de que voltarei a ser violentada, caminhei, agora com força renovada para suportar, levando uma futura plantação arrumada no sentimento.





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Writer Profile
Elaine CrisXavante (Comitiva Pantaneira)


O poema de Clarice Lispector "Pertencer" me define bastante e meu Perfil aqui no TIG também, veja quando quiser.
Seja Bem Vindo ao meu Mundo!
"Quero além dos Horizontes/ mais que uma madrugada/ sol que nasce atrás dos montes/ não clareia a minha estrada..."
(Zezé Di Camargo)

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