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Type
Research Report
Author
Jornal de Brasília
Posted
September 12, 2008
Relevance
Brazil
Categories
Education Environment Health
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Cerrado - Celeiro de plantas que curam
Jornal de Brasília
12/09/2008
PROJETO: De olho no potencial da fototerapia, Farmacotécnica aposta no Cerrado
Da Redação
O bioma do Cerrado - que conta com mais de dez mil espécies vegetais nativas - é considerado um celeiro de produtos naturais para a fitoterapia - o uso terapêutico de plantas. Isso porque submete a vegetação a um estresse crítico em função de suas duas estações bem definidas - ora quente e seco, ora frio e úmido. Essa característica tem influência no metabolismo secundário da planta, que para sobreviver acaba desenvolvendo substâncias importantes que podem ajudar na cura de diversas doenças.
De olho na potencialidade medicinal das plantas do Cerrado e de outras regiões, a Farmacotécnica, rede brasiliense de farmácias de manipulação, possuiu um dos maiores cultivos de ervas medicinais no Distrito Federal, na zona rural da Vargem Bonita. A produção é desenvolvida há mais de 30 anos e surgiu quando o farmacêutico e proprietário da empresa, Rogério Tokarski, na época técnico agrícola, se interessou no plantio de ervas medicinais e decidiu cultivá-las.
Na chácara são cultivadas, inclusive, espécies que não são típicas do Cerrado e que foram climatizadas para se adaptar ao clima da região central do País. Um exemplo é a espinheira-santa, uma planta nativa da Região Sul, e que, até então, não se adaptava a outros ambientes fora de seu habitat natural. A espinheira-santa é utilizada para o tratamento de gastrite e úlcera e sua primeira climatização, mantendo o mesmo teor de princípios ativos, foi realizada na chácara de Vargem Bonita, no Park Way.
Camomila
Outra planta também climatizada para a região foi a camomila, que é típica do sul do País. Atualmente o cultivo da flor no Cerrado, considerada como uma das favoritas pelos consumidores de chá, detém a maior concentração de princípios ativos. Em se tratando de medicamentos, a linha natural está cada vez mais presente.
"A gente vê muita dependente em analgésicos, relaxante muscular, isso por causa da tensão do dia-a-dia. A utilização da fitoterapia pode trazer benefícios a essas pessoas, reduzindo o nível de substâncias tóxicas no organismo", afirma a farmacêutica Leandra Sá de Lima, da equipe da Farmacotécnica.
Longo caminho
No entanto, ainda há muito para ser descoberto na fitoterapia, principalmente em relação às ervas medicinais brasileiras. Segundo a especialista, a situação acontece não por falta de iniciativa e verbas, pois muitas empresas investem em inovações e constantemente há recursos federais destinados a estimular o cultivo e a pesquisa na área, principalmente depois da criação da Política Nacional de Plantas Medicinais.
O problema é a falta de organização entre os pesquisadores e de um centro de convergência, que pudesse agregar todo o conhecimento sobre os produtos fitoterápicos. "Tem muita gente pesquisando mas não tem esforços organizados. Por exemplo, no Acre tem alguém pesquisando uma planta, no sul também, e isso não vira um banco de dados comum para validar o trabalho científico sobre plantas. Medicamentos com ervas medicinais ainda carecem de muitos estudos", aponta.
Estima-se que existam no Brasil cerca de três mil espécies com características fitoterápicas, mas sua utilização exige muito cuidado. Apenas 50 delas são validadas com uso medicamentoso pelo Ministério da Saúde. Entre as 80 espécies cultivadas na chácara da empresa, estão o capim santo, o guaco, a camomila, a carqueja, a hortelã e a stévia. Além de utilizá-las no tratamento de doenças, as plantam são usadas para a produção de cosméticos.
Propriedade testada
A Central de Medicamentos (Ceme) desenvolveu um projeto visando a comprovação das propriedades medicinais das plantas de uso popular. A partir do projeto, várias plantas que eram utilizadas pela população começaram a ser estudadas para verificar sua eficiência. O bom resultado do chá das folhas do mentrasto para combater a artrose fez com que a planta fosse estudada e sua eficiência comprovada. O mentrasto também auxilia no combate à hepatite.
Porém, o chá deve ser feito somente com as folhas, pois as flores do mentrasto são tóxicas. Todas as plantas cuja eficiência é comprovada cientificamente devem passar pela fiscalização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para então poder ser comercializada.
Outra planta cujo efeito benéfico foi comprovado é a Phillanthus niruri, popularmente conhecida como quebra-pedra, utilizada para combater cálculos renais. A planta contribui para o relaxamento das vias urinárias, facilitando, assim, que os cálculos renais sejam expelidos.
Nem sempre o resultado científico condiz com as crenças populares. Existem várias plantas que são tidas como eficazes para combater determinadas doenças, mas quando testadas, são reprovadas. É o caso do capim santo. Para muitos, era uma planta com capacidade de acalmar as pessoas, mas essa teoria não obteve sucesso depois dos testes. Ficou comprovado que o capim santo alivia cólicas.
Outras funções
O hortelãnzinho, por muito tempo, foi usado popularmente como vermicida. Foi em Pernambuco que seu potencial medicinal foi comprovado. Hoje, é comercializado em cápsulas do pó das folhas, para combater ameba e giardia.
O boldo-do-Chile, camomila e erva-doce, tradicionais na fitoterapia, já tiveram sua eficiência comprovada. A vinca rósea, por exemplo, contém substâncias ativas contra leucemia e câncer de próstata. Talvez a cura para uma doença que tem tirado a vida de tantas pessoas pode estar em uma simples planta.
Desde a preparação
Uma vez por ano a Farmacotécnica abre as porteiras de sua chácara para receber estudantes e convidados dentro do Projeto Preservar. Um dos objetivos do projeto é a capacitação de jovens estudantes da área rural de Vargem Bonita. Este ano, 40 alunos do Centro Fundamental Vargem Bonita foram escolhidos para se tornarem monitores. Para isso, durante dois meses tiveram cursos sobre os princípios ativos de cada erva medicinal cultivada na região, palestras sobre o manejo das plantas e aulas práticas de manipulação dos produtos.
"Isso os deixa muito empolgados. E são eles que explicam para os visitantes sobre os benefícios das ervas e sobre a manipulação das plantas", destaca a coordenadora do projeto, Evanete Pereira dos Santos. As aulas foram preparadas em parceria com a Emater. O órgão ficou encarregado de orientar os estudantes sobre a preparação do solo produtivo, o cuidado que se deve ter nesse tipo de plantação e sobre a manutenção da planta.
As atividades que acontecem no Projeto Preservar farão parte de um documentário realizado pelo cineasta Fernando Camargo e que será produzido pelos próprios alunos de Vargem Bonita. Com isso, além de todo o conhecimento adquirido nas aulas oferecidas e de viver a experiência em repassar tudo o que aprenderam para os grupos que visitam a chácara, os estudantes também participarão da oficina de documentário promovida pelo cineasta. "Todo o conteúdo é feito por eles", disse Camargo.
Mantendo a tradição
O principal objetivo do Projeto Preservar é manter viva a tradição do cultivo das ervas medicinais. "A gente quer resgatar, além dessa cultura dos nossos antepassados, o cuidado com o meio ambiente", destacou Evanete. Segundo ela, em vez do extrativismo, a iniciativa do projeto busca orientar as pessoas a produzirem seus próprios cultivos. Além da idéia ecológica e o repasse da tradição do cultivo da erva medicinal, o projeto também procura oferecer ao estudante como é realizado o processo do desenvolvimento e da manipulação com as ervas medicinais.
"Queremos que jovens possam estar vislumbrando outras profissões como, o que é um farmaceutico, o que é um agrônomo, como que se faz um trabalho de cultivo do solo, como se cuida dessa plantação. A gente participa, coloca essa criança em contato com diversos profissioais, o que os deixa muito empogados", acrescentou a coordenadora do projeto.
Na chácara, o Projeto Preservar recebe diversos grupos escolare ou mesmo das comunidades. A reação de todos é sempre a mesma: surpresa.
Para o estudante José Vitor Santos, 10 anos, o importante em conhecer os laboratórios e os cultivos de ervas é saber como flores e plantas têm o poder de curar. Mas o que realmente chamou a atenção dele foi como é feito o xampu. "Achei muito massa o laboratório, principalmente quando ensinaram a fazer o xampu, quando mostraram o extrato de camomila. E no canteiro vi a importância das plantas para o nosso organismo", diz.
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