by Felipe Oliveira de Sousa
Published on: Apr 15, 2004
Topic:
Type: Opinions

Falar de música é sempre algo muito desafiador pois envolve emoção, sentimento e alma! Ela norteia o subjetivo, o abstrato. A partir da música, tornamo-nos capazes de sentir a liberdade invisível que há em nosso interior. Ela desperta, antes de tudo, a nossa sensibilidade para compreensões mais profundas sobre os mais diversos acontecimentos da realidade.

Não irei tentar definir o conceito “música”, pois isso constitui algo que transcende as linguagens expressas, sejam essas escritas ou faladas. Percebo-me em um dever um pouco mais palpável ao delinear, a partir de agora, algumas idéias e opiniões acerca do universo e do meio da música.

A música é invisível. Ela desobedece quaisquer regras pré-estabelecidas, já que, através de um processo natural, torna-se capaz de desenvolver uma resignação espontânea do ser humano. No momento a partir do qual o indivíduo se encontra preparado para senti-la em seu ritmo interior, o movimento de sua alma evolui mais homogêneo, mais denso.

Em um sentido mais amplo, se é que exista algo superior ao Eu interior, a música nos submete a um poder oculto, que nos eleva a uma concentração nos pensamentos e a um discernimento de idéias que muito auxiliarão na busca sempre incessante do ser humano por sua essência individual, sua razão como elo de fundamentos na sociedade.

A música consiste, primordialmente, em poetizar os sons, para que todas as emoções sejam expressas em versos e compassos de mais pura harmonia e vida. Não me proíbo afirmar, assim, que o processo de reificação da música, algo que infelizmente se vem apresentando cada vez mais comum ao longo dos tempos, constitui uma grave digressão em termos da arte e da mais pura arte.

No atual panorama cultural do nosso planeta, que se supõe extremamente globalizado e democrático, vê-se, muitas vezes, o processo de descaracterização dos costumes de diversos povos em prol do que se deseja alcançar: um maior intercâmbio para promover a universalização das culturas das mais variadas populações.Isso estabelece uma contradição. Esse descompasso também ocorre, evidentemente, no âmbito da Arte, especialmente no que se relaciona à Música.

É, de certa forma, um absurdo conceber uma fusão dos mais diversos estilos de música sem que haja, antes de tudo, uma maior consciência dos indivíduos a respeito do conceito de Arte. O que se constata atualmente não é nada promissor. O ser humano, sem generalizações, torna-se cada vez mais individualista e, assim, menos suscetível à influência de novas idéias, fazendo com que a concepção de Arte se reduza bastante, ficando, dessa forma, bem mais distorcida e restrita. Isso acaba por convergir na música.

Muitas pessoas, ao invés de perceberem a música como forma de expressão exímia, permite-se vulgarizar (musicalmente falando, é claro). Desse modo, uma determinada quantidade de pessoas não se habilita a ter acesso à sua própria e original música, ampliada em sua essência. Isso as transforma em seres muito alicerçados a certos gêneros “falsos” de música, de arte.

Não cabe a mim estabelecer uma discussão sobre esse aspecto divergente da sociedade em torno do mundo artístico. É uma questão que deve ser discutida proficuamente por todos os indivíduos. Apenas me coloco aqui no dever de alertar a sociedade para a necessidade da realização de um questionamento mais profundo sobre o que foi exposto acima.

Sem mais engajamentos, voltemos à caracterização da música. Como já dizia o grande filósofo Platão: “A música tem o poder de tocar o mais profundo de nossa alma e dá asas à imaginação”. Daí advém o fundamento de se afirmar que tocar e sentir música liberta a nossa alma para uma vida mais soberana, mais viva!

O ato de fazer música é muito interessante já que envolve o ser humano em seu aspecto racional e em seu mundo intuitivo, ou seja, mistura os dois extremos do cônscio do homem. Talvez, o principal desafio para todos os grandes músicos seja, exatamente, fundir harmoniosamente esses dois universos: o da razão e o da imaginação.

Para que se penetre intensamente no mundo da música, o indivíduo tem que transcender a sua mente discriminativa e analítica. É necessário que se atinja uma mente espacial, capaz de ultrapassar os limites dos sentimentos do ser humano em sua unidade individual.

O som produzido através da música possui a capacidade de alterar um ambiente. É como se ele fosse uma arquitetura do nosso imaginário que agora foi concretizada, realmente construída. Na música, o som (propriamente dito, racionalmente projetado) se funde com as dissonâncias e com os barulhos (sons que não se desejam obter). “A música é o barulho que pensa”, de acordo com Nietzsche.

Essencialmente, as vibrações sonoras contidas em uma música adquirem um caráter universal, ou seja, todos os indivíduos que ali se concentrarem realmente e, a partir disso, atingirem alguma compreensão natural sobre algo mais subjetivo do seu interior, estarão, mesmo que inconscientemente, elevando os seus espíritos a planos superiores.

Diante dessa linha de raciocínio, afirmo, sem nenhum receio de errar, que a música é uma substância da alma! Ela tem a capacidade de colorir o nosso interior. A música alimenta a alma. Nutre-a de sentimentos e de emoções que vão da angústia à felicidade, estabelecendo um vínculo mais intenso em matéria e espírito. Por isso, sejamos todos grandes aprendizes e eternos admiradores desse sujeito místico e científico que é a música!

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