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As ultimas cartas de um morador da terra Printable Version PRINTABLE VERSION
by Tony Pent, Brazil Jun 17, 2009
  Short Stories
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As últimas cartas de um morador da terra


Primeiro dia


Estou só... Tenho a impressão de que já faz quatro ou cinco dias que eu não vejo uma alma viva em todos os lados em que olho a minha volta.
Não falo com ninguém, a não ser com a minha própria consciência. Os pedaços dos seres vivos destroçados pelos escombros, nem sequer tiveram a primazia de serem comidos pelos vermes. Nada sobreviveu a esse terrível castigo. Todos estão mortos e eu , infelizmente continuo vivo, para dar testemunho do que aqui se passou.
O sol como todos os dias desponta no horizonte, mas não tem a mesma intensidade de brilhar com seus raios de luz, os filhos que Deus deixou para habitar esse pequeno planeta.
Tudo aqui é o desolamento. O silêncio é tão intenso, que eu posso ouvir a minha própria respiração embargada pelos soluços que vem de dentro da minha alma.
Nem a mais simples formiga se movimenta diante dos meus olhos:
As árvores que outrora nos dava a sombra e o encanto de suas flores, hoje, no entanto, se tornaram ressequidas e calcinadas e, se projetam sobre a luz do sol, como restos dos mortos a implorar com seus galhos em forma de braços negros, a piedade para os homens que aqui viveram.
O que vejo a minha frente são as duras penas sofridas pela falta do amor.
Os prédios majestosos, com seus espelhos a refletir a imponência dos homens,transformaram-se em amontoados de areia, bem como as casas, os monumentos e as ruas. Nem mesmo a mais leve aragem desloca um grão de areia de todos esses sonhos sepultados.
As belezas solenes e fatídicas dessas imagens, combinam com os desgostos de se aqui viver por tantos anos. Parecem-me uma blasfêmia cogitar na destruição desse planeta e a extinção de toda a sua beleza serena. No entanto, a sentença foi comprida e aqui se estabeleceu o maior império dos mortos.

Meu querido Deus e pai de todas as coisas, se Você que era para nós o principio e o fim, por que não nos deu a todos uma oportunidade igual?
São essas coisas que eu não consigo entender, talvez Você não veja as coisas como eu as vejo. Nós nessa terra nos deslocávamos para todos os lados, e com isso nos fazia conhecer as pessoas que se amavam mutuamente e sempre esperava um afago de Vossas mãos com a compreensão de um verdadeiro pai. Se você sabia de tudo isso, afinal nos criou a sua semelhança, por que permitiu que seus filhos se matassem uns ao outros, se o Vosso filho adorava tanto as crianças?
Você simplesmente acabou com o mundo, sem realmente nos dar uma oportunidade de superar as desvantagens que nos impôs.
Hoje, agora, ao olhar tudo que restou da humanidade, fico a pensar como você se sentiu ao ter que criar uma luz nas trevas, para dar início ao mundo que tanto sonhara. Creio que a solidão que agora sinto, tenha sido a mesma que sentiu naquele dia e porque, agora, nos cobra esse direto ínfimo, que o Senhor mesmo nos concedeu? Dessa forma, sujeito-me a pensar, que os seus direitos sejam mais ínfimos que os nossos...
Perdoa-me se me coloco como o último dos seus filhos que ainda vive, a interrogá-lo sobre as coisas que vem de Você ! Sei que estou cansado e com medo e, ao ver que tudo foi destruído e por me encontrar sozinho e a falar comigo mesmo. Sei que me revolto com tudo isso e fico a me perguntar: Por que Você não tomou um novo caminho e transformou os Seus filhos num caso de amor? Não! Isso poderia ser muito complexo para Você que não tem tempo para nada.
Eu sim,amei esse mundo e Você jamais o amou como eu! Agora ao vê-lo assim destruído, eu fico a pensar que, talvez ,Você esteja sentado ai no paraíso, observando tudo e por certo não fazendo nada, como alias, nunca fez por nenhum de nós. Não consigo acreditar que Você deixou que tudo isso nos acontecesse... Afinal, se foi Você quem criou tudo isso, e que deu luz às estrelas, brincou com elas, encheu a terra de água e plantas, os animais e os homens: por que não levantou um só dedo para nos salvar? Será que Você já se cansou de brincar com seus inventos?
Apesar tudo eu ainda moro em um dos menores planetas que Você criou e é aqui que eu gosto de viver. Foi aqui que encontrei meus amigos, meus pais e meus irmãos. Apaixonei-me por tudo que meus olhos viram e a minha percepção me deixou sentir.
Mas nem por isso eu posso deixar de contestar solenemente que Você nunca se enquadrou neste mundo. Pode ter certeza que não vai aqui nenhum desrespeito sobre as minhas indagações , mas o mundo em que Você criou para os Seus filhos , mais se pareciam a um circo , habitados por verdadeiros palhaços e onde o principal espectador era Você.
Eu sei que apesar de nós sermos esses infelizes e inocentes habitantes do Seu planeta, nós ainda irradiávamos uma alegria que Você podia sentir e até Lhe fazer um pouco feliz . E por pensar nisso, o mundo todo acreditava que Você jamais acabaria com tudo que Você mesmo construiu.
É... não teve outro jeito! Você se cansou desse bando grotesco de artistas, que Você colocou para morar em Seu brinquedo, onde uns eram generosos e outros completamente loucos para se matarem uns ao outros.





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Tony Pent


Escritor e jornalista
Livros
O diario de um terrorista, a visão de um terrorista, diante do conflito arabes e judeus
Estigma da loucura,
De volta para o inferno
Marysia e Henryk - saga polonesa
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